Denunciar o desmonte do órgão foi a maior vitória da greve dos servidores do INSS
26 de maio de 2022
Após dois meses de greve, servidores do INSS terminam movimento que, além da luta por reajuste salarial, denunciou o desmonte do serviço público, provocando dificuldades para 2 milhões de segurados que estão na fila a espera de benefícios
Denunciar à população que o único responsável pelos atrasos na concessão de dois milhões de benefícios e de um milhão de perícias médicas é o governo de Jair Bolsonaro (PL) foi a vitória da greve de dois meses dos servidores e servidoras do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), que terminou na terça-feira (24/05).
Embora a categoria não tenha conquistado o reajuste de 19,99% pleiteado também pelos demais servidores públicos federais, o fato de manter em evidência que faltam mais de 10 mil servidores no órgão por causa de demissões, aposentadorias e pela não realização de concursos públicos foi relevante, dizem sindicalistas.
Segundo eles, o último edital de concurso público para o INSS foi lançado em dezembro de 2015. Eram apenas 150 vagas para o cargo de analista do seguro social (função que exige nível superior) e 800 para técnico do seguro social (cargo que requer ensino médio).
“Do ponto de vista da denúncia serviu para que a população entenda que o desmonte do INSS, acelerado após a reforma da Previdência de Bolsonaro, é culpa do governo que tentou esconder a falta de condições de trabalho ao contratar 10 mil militares que não reduziram a fila do INSS, e não por responsabilidade do servidor concursado”, diz Vilma Ramos, Secretária-Geral do SINSSP (Sindicato dos Trabalhadores do Seguro Social e Previdência Social no Estado de São Paulo).
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Outro ponto destacado pela dirigente foi chegar à população a informação de que o piso da categoria é abaixo do salário mínimo (R$ 1.212). Das 384 carreiras de servidores federais, os trabalhadores do INSS são os únicos que têm o piso abaixo do mínimo.
“Nossa categoria recebe 70% dos seus vencimentos de forma variável. Quem fizer um concurso para trabalhar no INSS vai ganhar abaixo do mínimo e só recebe um pouco mais a partir das gratificações”, afirma Vilma.
A luta por reajuste
Os servidores do INSS reivindicam um reajuste de 19,99% de acordo com as demais categorias, embora a sua defasagem seja de 28,8%, por estarem desde 2016 (governo do ilegítimo Michel Temer), sem um centavo de aumento salarial e, por falta de abertura de diálogo com o atual governo, não foi feita nenhuma contraproposta, apenas uma carta de intenções de conceder reajuste de 5%.
Vilma explica que nem o Ministério do Trabalho e Previdência pode se comprometer a dar o reajuste pedido, já que a concessão de aumentos aos servidores compete ao Ministério da Economia, que vem assinalando que dará 5% de reajuste a todas as categorias de servidores.
O que reivindicam os servidores do INSS
Além do reajuste de 19,99%, da retirada da PEC 32 e da revogação da Emenda Constitucional do Teto dos Gastos, a categoria reivindica:
- Recomposição salarial data-base;
- Reajuste dos auxílios alimentação, creche e saúde;
- Reestruturação da carreira típica de estado para o seguro social;
- Nível superior para ingresso ao cargo de técnico do Seguro Social;
- Rediscussão dos processos de trabalho;
- Fim dos adicionais de meta para o teletrabalho;
- Auxílio teletrabalho para o uso de internet, energia, mobiliário e equipamentos
- Jornada de 30 horas semanais para o atendimento de qualidade para a população;
- Fim da terceirização do INSS;
- Concurso público;
- Derrubada do veto de R$ 1 bilhão do orçamento do INSS;
- Não ao fechamento das Agências do INSS e;
- Defesa do direito ao atendimento presencial ao cidadão nas unidades do órgão.
Os servidores também reivindicam em pauta específica, já entregue ao Ministro do Trabalho e da Previdência Social, que consiste na profissionalização da Carreira do Seguro Social.
Desmonte do INSS começou com o golpe de 2016
Nos governos do PT, a prioridade tanto de Lula quanto de Dilma Rousseff, era garantir um atendimento rápido e de qualidade para o trabalhador e todos que têm direito a benefícios do INSS.
A demora na concessão da aposentadoria e benefícios começou no governo Temer e foi aprofundada nesses três anos e cinco meses de governo Bolsonaro, afirmou ao PortalCUT o ex-ministro da Previdência, Carlos Gabas, que deixou o ministério em 2015, quando um trabalhador demorava apenas 30 minutos para conseguir se aposentar, não existia fila de espera no INSS.
“Quando deixei o Ministério, a fila de espera era de 30 dias e o ex-ministro Carlos Gabas conseguiu diminuir ainda mais, para apenas 30 minutos”, lembra o também ex-ministro da Previdência, Luiz Marinho, que deu início ao processo de modernização, formação, construção de novas agências e reforma das antigas unidades.
Quando Lula assumiu a Presidência, em 2003, o setor estava desmantelado, com imensas filas de pessoas reivindicando o direito de se aposentar. O presidente considerava isso uma humilhação para o trabalhador e queria que acabasse, diz Marinho.
“Eu e os ministros que me antecederam e que me sucederam no cargo cumprimos um plano, a pedido de Lula, de investimentos em tecnologia e pessoal para resolver a questão das filas”, recorda Marinho.
“Nós criamos a escola previdenciária, modernizamos e ampliamos o número de agências, valorizamos a prestação do serviço nas cidades, territórios e regiões e chegamos a ter 44 mil, pois realizávamos concursos para repor o pessoal que saia, se aposentava ou morria”, pontua Marinho, que lamenta o desmonte nos governos Temer e Bolsonaro, porque quem paga a conta é o trabalhador e a trabalhadora”, concluiu.
Por Rosely Rocha, com edição de Marize Muniz/CUT Nacional